Ser a primeira a chegar, sentar perto das autoridades, ter atenção de todos, ser a mais competitiva, a mais popular, a mais isso ou aquilo. O que dessas coisas, de fato, nos realizam ou agregam na nossa vida? Queremos mostrar esses resultados para os outros ou essas ações nos realizam verdadeiramente?
Tenho a sensação que a plenitude humana está relacionada a estar no meio das pessoas, pertencer, agregar onde estiver, existir de forma ativa e atenta, ter compaixão, ouvir os sons da natureza e de Deus. Sentir os cheiros dos banhos e dos temperos, saborear a escrita sentida, a música ouvida, a conversa falada. Se ligar mais nas pessoas e se desligar dos eletrônicos. Difícil, mas possível.
Todas essas situações cotidianas quando vivenciadas intensamente são afortunadamente a melhor forma de se conectar com algo maior, além de viver com plenitude e felicidade. Sem precisar de primeiros ou últimos lugares. Dispensando o que é coisa e valorizando pessoas. É sobre ser e não somente aparecer.
Ser a última num mundo que idolatra os primeiros não é fácil. Sentia-me assim na escola, na família, nas amizades. "Os outros" pareciam se destacar mais. No ambiente escolar não pertencia a turmas, guetos. Sentia-me atrás, sozinha.
Por outro lado, conseguia me sair bem em algumas situações, mas não as reconhecia. A desvalorização sempre esteve presente. O que isso teve de bom na minha vida? Muita coisa. Sinto e entendo a dor dos "últimos".
Sei o peso de se sentir excluída, ou por ser diferente ou por não ter o desempenho que esperam. Alcanço o sentimento de não pertencimento daqueles que não estão nos padrões exigidos. Por vezes, escolho ficar por derradeiro.
Quantas vezes os que não tiveram oportunidade são julgados? As pessoas em situação de rua, os viciados ou mesmo os mais atrasados da sala? Os que não conseguiram alcançar algumas metas, os que não chegaram nos primeiros lugares das competições, as pessoas LGBTKIA+.
Há uma invalidação social caso você não siga padrões ou tenha a "alta performance" alardeada nas teorias de ser "bem-sucedido".
É importante incluir quem está só, quem não é visto, compreendido ou ouvido. Acredito que terão um lugar especial em algum tempo, nalgum lugar e no coração de Deus.
Não é simples discordar da lógica social em que casa, carro, turmas e bens materiais são as balanças de pesagem do sucesso. Por outro lado, a simplicidade é mais acolhedora, mais sustentável e mais sã.
Olhemos pelos que estão à margem e aprendamos com eles. Se olharmos bem, quem está mais atrás como o peixinho da ilustração, a visão é mais alargada, o horizonte é mais amplo. Lembremos que "muitos primeiros serão últimos; e muitos últimos serão os primeiros".
No meu caminho do trabalho para casa, procuro observar as
pessoas, especialmente as mulheres. Nós somos múltiplas.
Passos apressados e firmes. Horas, vagarosas.
Cheias de sacolas de compras. Roupas, sandálias, mercantis.
Às vezes, sacolas de esmolas.
Somos pretas, pardas, asiáticas, loiras, encaracoladas,
crespas, carecas. Predominamos num padrão de cabelos alisados, apesar de sermos
mais belas pela nossa diversidade.
Cada mulher, uma história, uma luta. Muitas lutam para
sobreviver. Outras lutam por uma luta. LGBTKIA+, assédio sexual, moral,
patrimonial, importunação sexual, PCD’s, raças, minorias.
Há lutas pela defesa dos direitos dos filhos. Enfermos,
autistas, com síndrome de down ... Filhos sem comida, sem escola, sem saúde,
sem lar, sem pátria. Muitas são sós sem estarem sós.
Continuo minha caminhada. Vejo agora uma mulher de roupa
branca. Morena, cabelos pretos, estatura mediana, meia idade. Quais as lutas
dela? Suas marcas de expressão marcam o meu olhar. Nos entreolhamos.
Seguimos.
Cada qual com a sua labuta. E o que a minha vida tem a ver
com a sua lida? Qual a nossa intercessão?
Nosso ser mulher nos une num mundo que nos subordina, nos
paga menos, nos inferioriza, nos exclui, nos assedia, nos amedronta, nos
violenta e nos mata.
Precisamos lembrar de quem somos
e do que fazem conosco só porque somos do gênero feminino. Comecemos por nos
olhar, nos enxergar, nos compreender. É fundamental atuar para que nossas lutas incluam a
defesa da vida em abundância para todas as mulheres.
Você já teve a sensação de conversar com alguém e que o diálogo se transforma num monólogo?
Você ouve, mas na hora de falar a outra pessoa não consegue te escutar. Você até que tenta, mas a ausência de respiração alheia te impede.
Às vezes, dá vontade de dizer: "respire", ou "silencie" para que você possa processar o que está sendo falado e tornar-se uma conversa.
Tem horas que eu penso que é um pouco de carência. Quem sabe está se sentindo só e não tenha com quem conversar.
Outras vezes, penso que é egoísmo, pois a pessoa está tão voltada para si e para suas questões que não consegue ouvir, ver ou sentir o outro.
E por fim, analiso que pode ser resultado dessa vida frenética, onde não dá tempo de pensar, refletir ou silenciar, e o que resta é falar.
Sem mencionar que além de aprender a ouvir, também podemos aprender outros talentos e habilidades que provavelmente não tenhamos. Aprender um modo diferenciado de ver e de viver a vida, mas para isso precisamos silenciar.
Por isso, sejamos mais humildes e fiquemos atentos para o que está ao nosso redor e principalmente quem está ao nosso redor. A conexão com o ser humano passa pela comunicação, que é uma vida de mão dupla, assim como pela empatia. Falemos, mas ouçamos também.
Sempre tenho a sensação que as lentes dos meus óculos estão manchadas. E olho para o par alheio e acho que está irritantemente limpo.
Já entrou na lista das obrigações matinais limpar os benditos óculos, mas parece que mesmo eu me disciplinando, nada muda. Continuo com vista turva.
Lembrei do ditado em que o jardim do vizinho é sempre mais verde. Dá certinho: os óculos alheios estão sempre mais cristalinos. Como sempre, a vida imita a arte e a metáfora imita a vida.
O meu par de óculos e a minha vida são reais e tem horas que estão bem e outras que não vão lá essas coisas. Tudo normal. Da mesma forma, a vida das outras criaturas segue o mesmo curso da balança: horas pra cima, horas pra baixo.
Nem sempre o que eu enxergo é a perspectiva real ou única. Minha visão política, orientação sexual ou religião não são absolutas nem melhores. São só a minha forma de ver, de ser e de crer.
Fácil deduzir então que meus óculos podem estar sujos nalguns momentos, mas noutros vão me dar a melhor visão do mundo. O importante é respeitar todos os pontos de vista, buscando sempre a nitidez do coração e da alma.
Engoli água, pernas batiam em mim, pensei que eu ia me afogar. Vi os bombeiros. Sair carregada não era uma opção. Ser desclassificada não estava na lista das metas. Foi aí que eu me lembrei do meu nado de emergência, "nado peito". Mudei para ele. Foquei na respiração. A falta de fôlego permanecia, mas foi aliviada.
Consegui fazer uma volta. Já se foram 250m em mar aberto. Tinha que dobrar a meta. Na rotina normal, 1000m era comum realizar, mas numa competição, o mar muda de figura e a emoção também.
A tábua de salvação era o nado peito. Sempre me acalmou. Voltava a respirar bem. Dava-me segurança. Tornava o impossível, possível. Num mar cheio de desafios físicos e emocionais, receio de estar no percurso errado. Eu respirava e nadava, nadava e respirava. Meu maior trunfo era a persistência. Cheguei na chegada.
A vida se assemelha a esse momento. Tem horas de angústia, de dor e desespero. Para onde seguir? O que fazer? Para quem contar, ou melhor, com quem contar? Sigo ou levanto a mão desistindo? E se a cabeça não acompanhar a vontade e o corpo falhar? A respiração faltar?
Nade peito. Chame as pessoas em que você confia. Chore e esvazie a mágoa. Nade peito. Durma e acorde melhor. Procure uma terapia. Reze e confie. Nade peito e tenha sempre uma saída de emergência e uma tábua de salvação. Serão muito úteis nos dias de mar agitado e de vida revolta. Vão te ajudar a alcançar a chegada.
LP's, encartes e radiola rodearam a minha infância. Os irmãos mais velhos já compravam seus próprios discos. Sorte minha. Elis, Alceu e Caetano dariam o tom na Rua Frei Teobaldo, 208, no Carlito Pamplona. Já tive alguns endereços, mas esse ficou encantado. Acho que a culpa é da música.
Além da MPB, o cardápio incluía rock dos Titãs e da Blitz e o samba da Alcione. Todos eles comporiam um grande acervo que só depois eu entenderia que muito me influenciaria, até os dias de "Alexa". Balão Mágico e os Três Patinhos confirmavam que criança também tinha suas preferências.
Do papai, eu herdei o gosto pelo baião. Sou fã obstinada do Luiz Gonzaga. Aliás, sempre fui. Vez em quando, dançava na sala com meu mentor do ritmo nordestino mais famoso. "Essa menina vai ser forrozeira", profetizada Pedro pai.
Clara Nunes era idolatrada pela mamãe. "Morreu tão jovem". E cantarolava "Feira de Mangaio". Farinha, rapadura e graviola faziam parte da nossa despensa. Mamãe me ensinou que não tinha época para aprender. Sentava de banda na sua cama, ajeitava o violão e dedilhava letras de seresta.
Voltando para o forró, tivemos momentos quase de despedida. Chegou o tempo em que o amor desafinou. Os discos de Gonzaga saíram de perto de Clara. No dia marcado para papai pegar seu quinhão, eu sabia que a coletânea do Rei do Baião entraria na mala.
Com meus 12 anos recém completados, senti-me no direito de ficar com o meu LP preferido. Garanti que "Roendo Unha" tocasse por vários anos na nossa radiola e que "Vinvin" cantasse atrás da serra quando o sol tava pra se esconder. No caso dos Ipiranga, não gostar de música nunca foi uma opção.
E dessa forma, entre músicas, influências, sentimentos, despedidas, dores e sons, adquiri um gosto musical peculiar, eclético e genuíno. Dou viva ao baião, ao samba, ao rock e à MPB. Gratidão meus irmãos, obrigada pai, obrigada mãe.
Porque sempre vai existir "um sanfoneiro no canto da rua fazendo floreio para gente dançar" e relembrar os momentos que os sons vão eternizar.
Estamos sempre no modo "pedir". Pedir saúde, realização dos sonhos, pedir por nós, pelos outros, pedir, pedir...
Quando alcançamos o que queremos, paramos para agradecer?! Nada! Pedimos de novo. Suplicamos aquilo que ainda está na "lista dos desejos".
É preciso uma pausa, um silenciar, um momento de gratidão. O ser humano necessita disso. Reconhecer que foi atendido. Agradecer por tantas bênçãos em sua vida.
Pela vida, pelos sentidos que tiver, pela família que integra, por respirar, pelas dificuldades que nos tornam melhores e mais humildes.
Acionar o modo gratidão é a maneira mais eficaz de sentir-se feliz porque não depende do que virá. Depende de você sentir e saborear. Agradeça, respire e seja feliz.
Entramos e saímos das nossas casas, apartamentos, trabalhos, cursos. Nesse ir e vir, há trabalhadores fundamentais para nossas rotinas. Dentre eles, estão os porteiros, os faxineiros e os copeiros. Cometemos a infelicidade, não pouco comum, de sequer cumprimentá-los.
Às vezes, nem os enxergamos. Eles abrem e fecham portas e portões, zelam pelos espaços comuns, servem onde estão, mas nossa cegueira humana nos faz ignorar a importância do que fazem ou mesmo a sua própria existência.
Esses funcionários estão voltados para o cuidado com os outros, com as entregas e encomendas. Limpam os espaços comuns, servem café, água, além de sorrisos e gentilezas, muitas vezes sem serem notados. Quanta dignidade em seu labor!
Transmitem informações sobre o regulamento do prédio, do que é permitido ou não, têm a sabedoria de comunicar o imprescindível ou omitir o desnecessário. O repasse de informes é mal interpretado por alguns. Não se percebe que estão apenas cumprindo suas obrigações.
Não menos importante, alertam os pais sobre a babá grosseira, o cuidado com os furtos na rua ou o presságio de que vai chover. "Melhor não sair ou então levar o guarda-chuva". Ao abrirem e fecharem portas, exercem grande responsabilidade.
Algum dia paramos para pensar como vivem, se moram perto ou longe, se trouxeram almoço ou jantar? Por vezes, nem sabemos seus nomes. Parar um pouco nas portarias, assuntar sobre sua família e trabalho com o cuidado de não os atrapalhar, já seria um excelente começo.
Podemos mudar essa realidade através de um cumprimento discreto ou caloroso, um agradecimento sincero ou a gentileza de um pedaço de bolo para um finzinho de tarde. No mínimo, esses profissionais se sentirão valorizados e servirão com mais amor e dedicação.
Boa dia seu porteiro. O senhor já tomou café?
#paratodosverem: ilustração de porteiro de camisa e gravata azuis, com uma caneta no bolso. Ele está segurando uma pequena cesta com suco, pão, fruta, uma flor e uma mensagem com "Bom dia porteiro". Ele esboça um semblante feliz.
Já estamos perto de finalizar o ano de 2021 e muitas coisas
boas e ruins aconteceram nesses últimos dois anos. Em 2020 fomos
“surpreendidos” por uma pandemia ocasionada por um vírus que já matou milhares
de pessoas no mundo inteiro. Eu ainda não tinha escrito sobre isso, mas só
agora com a situação da covid-19 mais controlada, me senti motivada a falar
sobre o assunto.
Vivenciamos um período de horrores. Pessoas morrendo
rapidamente infectadas pelo coronavírus. Hospitais lotados, pacientes sem
oxigênio, caixões lacrados. Famílias enlutadas que não puderam fazer o velório
dos entes queridos em virtude do risco da contaminação. Por meses, uma parte
considerável da população ficou isolada em casa. Aprendemos, a duras penas, a
trabalhar remotamente e a estudar virtualmente.
Deixamos de encontrar amigos e familiares presencialmente.
Olhávamos para as ruas sem movimentação, mórbidas, cinzas, com vestígios de
luto. Os dias isolados nos mergulhou em nossas dores e medos. Tudo parou,
secou, entristeceu, morreu.
Precisamos, como nunca, buscar reforços no lúdico, nas
artes, na música, na terapia e na fé. Foram fortalecedores num deserto que
parecia não ter fim. Por vezes, pensamos ser o fim. Começamos a valorizar as coisas simples, a
família, o lar, os telefonemas para os amigos, voltamos a jogar com os filhos,
amigos e companheiros. Videochamadas salvavam os almoços de domingo, os
aniversários à distância.
Na cozinha, passamos a ser protagonistas de pratos
improvisados, bem sucedidos nalgumas tentativas, noutras nem tanto. Então
buscávamos outras receitas, outros ingredientes para viver, inclusive. As
relações interpessoais nunca foram tão testadas, casamentos foram desfeitos.
Alguns já não era sem tempo. Houve um redimensionamento dos diálogos, foi
necessário reaprender a conversar, a conviver.
A pandemia foi impiedosa com a mediocridade. Nós
precisávamos ter um propósito, um porquê essencial ou sucumbiríamos. A grandeza
dos verdadeiros líderes foi decisiva, proativa e salvou vidas. A desumanidade
dos maus representantes desmascarou os genocidas. As ações dos corações nobres
e valentes coloriam e transformavam um cenário desolador.
Esse momento disruptivo da humanidade também trouxe com
veemência a solidariedade. Doações direcionadas para os mais vulneráveis,
campanhas se intensificaram para levar comida para a mesa de quem não tinha o
que comer ou mesmo quentinhas para quem não tinha mesa. Muitas mãos e corações
se juntaram para ajudar. A oração construiu superação. Deus se fez presente e
foi âncora a evitar nosso naufrágio.
Hoje, um ano e meio depois do anúncio da pandemia
permanecemos usando máscara, álcool em gel e mantendo certo distanciamento
social. Muitos já estão vacinados contra a covid-19 e a rotina parece voltar aos
poucos. A dúvida é: o que aprendemos com a crise sanitária mundial? Se
retornarmos para o nosso cotidiano no mesmo frenesi de viver sem saber para quê
ou por quê, perdemos uma grandiosa oportunidade de ressignificarmos nossa
existência.
Por outro lado, se a resposta for implementar a
mudança de cuidar de si, dos outros e da natureza, o aprendizado foi valioso e
fecundo. Como vamos lidar com nossa vida e a dos outros de agora em diante,
alinhados ou não, com princípios universais como justiça, honestidade, bondade
e integridade, ditará para qual lado o barco da nossa vida navegará ou se
ficaremos à deriva de outras fatalidades ou pandemias
- Quando a Jamille era criança lembro que ela não queria dançar quadrilha com um certo menino da escola e eu perguntei por quê.
- O menino é muito feio!
- E você é muito bonita, por acaso? E todos riam a valer.
Esse episódio realmente aconteceu. O "tal" do menino era o pior aluno da sala e eu tinha medo dele, mas isso não vem ao caso agora.
O que eu quero refletir com esse fato, contado até hoje, é indagar se vale mesmo a pena reforçar lembranças constrangedoras ou doloridas das pessoas?
Que sentimento é esse que a gente precisa ridicularizar os outros ressaltando as memórias ruins? Inclusive, reforçando erros cometidos no passado e que queremos esquecer e seguir nossas vidas.
Por vezes, fazemos isso com quem mais amamos para termos a satisfação de tirar boas risadas das pessoas, mas não de todas...
Os personagens das histórias podem ser filhos, pais, parentes, companheiros, amigos ou alunos, que ficam entristecidos. E o que é pior, pode acionar gatilhos dolorosos de não merecimento, tristeza ou abandono.
Encontros familiares, escolares ou bate papo com os amigos são ambientes comuns dessas "recordações" serem trazidas a tona.
Quais histórias contam sobre nós que causam constrangimento ou tristeza? Quais nós contamos sobre eles?
Cuidemos das lembranças boas. Validemos as ações construtivas. Alavanquemos risadas que todos sorriam e façamos das nossas memórias, situações que tragam contentamento e não desconforto.
Tornar os encontros momentos de encantamento e engrandecimento coletivo é um caminho muito mais edificante.
No Dia das
Mães tradicionalmente levamos um presente, um mimo, um chocolate, flores até,
para as nossas mães. Às vezes, rola um cartão, um teatrinho feito pelas
crianças, podendo se estender para uma cantoria nem sempre tão afinada, mas o
que vale é o amor que envolve mães e filhos. E precisa ser declarado e vivenciado.
Pois é. Mas hoje eu queria falar mesmo é das mães não tradicionais, aquelas que
tomaram a decisão de amar independente da natureza biológica.
Tem aquelas
pessoas que têm a maternidade tão aflorada que não precisou nem parir. É mãe de
coração. As mães que eram tão mães que adotaram um filho porque elas não iriam
se conformar em passar por essa vida sem cuidar de um ser. Poderíamos até
adaptar um texto da música para “um filho pra chamar de seu”. Não sabem nada
sobre a criatura, nem DNA, nem pai, nem mãe. Elas querem. Se tem doença
preexistente, se vai puxar a quem, elas não titubeiam, elas querem. Elas simplesmente
amam.
Outro amor
de mãe, podem ser avós, tias, irmãs, madrinhas, ou nem ter parentesco. Elas se
amalgam na vida dos filhos dos outros, não sem motivo, e amam intensamente. Tem
vó que precisou criar neto, tem tia que viu sobrinho abandonado e pegou para
criar, tem madrinha que assumiu a maternidade pela falta dos pais, tem irmã que
virou mãe, tem madrasta que foi boadrasta,tem mulher que não tinha nada a ver, mas foi
lá e cuidou e amou como uma mãe.
Dentro de
quantas casas essas situações não aconteceram e acontecem até hoje? Quantos de
nós não fomos acarinhados ou salvos por essas mulheres, que muitas vezes, nos
enxergaram, supriram nossas carências, pegaram em nossas mãos, nos tiraram da
solidão e do abandono.
Então, mãe
não só tem uma porque Deus fez milhares. Fez as mães anjo. E elas estão por
todos os lugares, em todas as casas, em todas as vidas. Nesse Dia das Mães e
por que não no ano todo, vamos agradecer também por tantas mães anjo que temos
em nossas vidas. O dia é delas também. Merecem nossos parabéns, amor, reconhecimento
e valorização. Feliz Dia das Mães, mãe, vó, tia, madrinha, irmã, madrasta, anjo.
Refletindo sobre o Big Brother Brasil me deparei com o BBB
de Deus. Às vezes penso que a gente está num reality show e Deus está nos
olhando. Então eu penso: será que estamos agradando a Nosso Senhor? Quanto
tempo mais Ele permitirá que fiquemos na Casa Comum?
Será que minhas atitudes vão me salvar do paredão do
inferno? E nas provas da vida, eu ganho ou perco a misericórdia de Cristo? Faço
tudo ao meu alcance para que outras pessoas vençam comigo ou sou implacável e
quero o pódio da vitória só pra mim?
Se eu tivesse um anjo para dar, protegeria a pessoa correta?
Melhor: eu tenho realmente sido anjo de alguém? Da minha família? Amigos?
Desconhecidos? Ou estou fazendo as alianças com as pessoas erradas? Priorizando
as coisas terrenas em detrimento das eternas?
Se eu fosse monitorada 24h pelo Espírito Santo, o que seria
selecionado para ser exibido em rede divina? Minhas lamúrias e lamentações?
Minha maledicência da vida alheia? Onde está o foco da minha vida? No bem ou no
mal?
Sendo líder e tendo abundância de bens, como vou agir?
Reconheço os talentos de outras pessoas? Distribuo com quem não tem? Incluo ou
excluo? Até onde vai verdadeiramente a minha fé? Pago o preço e vou até o final
para ser uma pessoa do bem? Ou tenho me limitado em cancelar quem eu não
aprovo?
Se eu for selecionada para ir para o quarto secreto ou um fazer
um isolamento social, vou aproveitar para repensar minhas atitudes? Ou vou
retornar para o jogo da vida sem fazer mudança nenhuma? Ou pior ainda, voltar
mais implacável e com vontade de me vingar das pessoas? Vou aproveitar melhor o
tempo ou continuar numa corrida frenética e dispersa?
Nossa vida acaba sendo um eterno Big Brother, onde seremos
avaliados pelas nossas ações. Nosso dia a dia vai definir se caminharemos para
uma estrada aparentemente mais difícil, cuidando de si e dos outros ou se
optaremos em viver na xepa das emoções egoístas. O que vale mais: ser ou
vencer?
Cuidemos, portanto, desse grande reality show que é a nossa
própria vida porque não será um público qualquer que irá fazer a escolha do
certo ou errado. O julgamento será superior ao humano e usará critérios como
amor, solidariedade e compaixão para avaliar se ganharemos o prêmio final.
Cuidemos para subir o pódio certo do grande show da vida, que virá inevitavelmente
após a morte. Se cuida, brother!
À noitinha, vi uma criança de 5 anos na rua. Um menino negro, pobre, só de calção. Ele gritava para a irmã que ia à frente.
- Olha Isabel! Ele tentava com muito custo subir num skate. Queria mostrar o que sabia (ou não) fazer com o skate. E insistia: - Olha Isabel, olha Isabel. Ela não olhava. Nem diminuía o passo. Não se importava. Estava preocupada com suas próprias questões.
Queria ter podido imaginar um bom futuro para aquele menino, mas as estatísticas não permitiram. Pisquei os olhos e ao reabri-los vi o menino dando lugar a um jovem que não teve oportunidade de estudo, nem de trabalho, com uma arma na mão. Ah, dessa vez, nós e Isabel olharíamos pra ele. Não seria mais invisível para ninguém. Enxerguemos os meninos de rua hoje para não vê-los de armas amanhã. Olha Isabel!
O ano de 2020 foi um ano de pandemia, de adoecimento, de milhares de mortes, de enterros sem velório, partidas sem despedidas. Um ano que preparou nosso despreparo, nosso destempero e nosso desamor. Por outro lado, também foi um ano de estar mais perto dos seus, dialogar mais com a família, conversar com os amigos, doar mais, pensar mais e em silêncio se manter.
Houve uma reinvenção de viver. Teletrabalho, cursos online, lives musicais, doações virtuais. Fomos solidários sem sair de casa. Tudo muito novo e inédito. Em momentos nos adaptamos, noutros nos desesperamos. Isolados por meses dentro de casa, a convivência não era fácil, mas o silêncio tudo acalmava. E no dia seguinte, novo ânimo reiniciava.
Fizemos aniversários, bingos, reuniões e comemorações conectados por um link, por videochamadas. Estávamos presentes de alguma maneira. Estudamos em salas de aula online, defendemos monografia virtualmente, colamos grau em estilo Drive In. Impensável! Recebemos presentes, cartões e mimos em datas comemorativas ou não, que nos davam um alento que o amor estava por perto, em formato de carinho.
A forma de comunicação eficaz também mudou. Uma videochamada nos alegrava. Fizemos cafés remotos com conversas reais. Nunca foi tão bom atender um telefonema! Fizemos dinâmicas entre amigas de ligarmos umas para as outras. Passamos horas em conversas. Voltamos às antigas. Vovós, netos, pais e filhos, familiares e amigos se conectaram de formas que nunca imaginaríamos.
Odiamos e nos apaixonamos por nós mesmos, por quem somos, por quem nos tornamos. Às vezes falávamos, em momentos calávamos, muitos instantes soluçávamos. Foi um turbilhão de coisas e ao mesmo tempo, nada. Nada de sair, de encontrar, de aglomerar. Havia um caos interior misturado com um por vir esperançoso que essa fase iria passar.
2021 chegaria. Tudo iria embora. Doença, coronavírus, máscaras. Nada! O Ano Novo rompeu e milhares de vida continuaram a ser perdidas. O adoecimento chegou, o isolamento foi necessário e voltamos a 2020. Entre medo e cuidados, vamos seguindo esperançosos mesmo que o normal não volte a ser como antes.
Acreditamos firmemente que tudo tem um propósito. Mesmo que precisemos viver de outra forma e realmente precisamos. Mesmo que não estejamos preparados. Releituras, amor em qualquer situação e presença carinhosa são as maiores lições que 2020 e 2021 nos têm dado. Sigamos nossos corações irmanados com nossa essência de servir e amar para além dos anos de pandemia.
Amália entrou no consultório do obstetra carregando no ventre seu primeiro filho ou filha. A gestação, recém descoberta, já entrava no terceiro mês. Era um misto de alegria e receio.
- Dr. Malan, aqui estão os exames que o senhor pediu.
O médico leu os resultados, ficou um pouco em silêncio, e pausadamente disse à Amália que ela deu positivo para toxoplasmose. Seguiu com a explicação.
- Antes de mais nada, quero informar que tem tratamento, mas preciso alertar para alguns riscos. O bebê pode ter problemas de visão, de desenvolvimento mental e há possiblidade de aborto.
Apesar de toda habilidade do médico, as respostas desestabilizaram Amália. Saiu desalentada. Perder um filho que ainda nem tinha nascido. Cegueira ou debilidade mental, eram as opções mais vantajosas. Recorreu à Mãe das mães.
- Nossa Senhora, afasta esse cálice do meu rebento. Rogo que meu filho nasça. Cuidarei dele de maneira abundante. Coloca em meu caminho outro filho e que com ele eu tenha uma missão. Até essa criança completar 15 anos, serei sua guardiã. Eu creio na tua Graça!
Passaram-se seis meses. Amália fez o tratamento prescrito pelo médico, realizou exames e perseverou na oração a Nossa Senhora, sua guia e protetora. Sentia-se amparada pela Virgem Maria de maneira que só a fé explicava.
Antes do parto, havia dois nomes que Amália titubeava em escolher: Letícia ou Larissa. O primeiro nome significava alegria, e o segundo, adorável. Era assim que ela sentia sua filha: uma adorável alegria! Não sabia por qual decidir, mas uma coisa era certa: parto cesárea! Ela lá queria sentir dor. A data não poderia ter sido outra, dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida.
Letícia nasceu dia 6 de outubro, de parto normal. Foi tudo como Amália não havia planejado, mas Nossa Senhora havia preparado. O teste do pezinho foi feito e Maria Santíssima foi louvada. A criança nasceu completamente saudável. A felicidade de Amália era indizível. Havia alcançado duas graças: era mãe pela primeira vez e sua filha era sã. Mãe e filha eram um só corpo, um só coração. Letícia veio ao mundo trazendo amor e a alegria que seu nome anunciava.
O vínculo com Nossa Senhora ficou mais forte e Amália pediu para que a Santa lhes mostrasse o outro filho que ela cuidaria. Ela saberia quando o encontrasse.
Confidenciou à sogra Rute sua promessa. Ambas foram fazer uma visita a uma criança que acabara de nascer. Chegando na casa humilde, foram recebidas por dona Maria, a avó da criança adorável, que se chamava Larissa. Amália exultou de alegria e deu graças por ter recebido um sinal tão preciso da filha que Nossa Senhora lhe enviou.
Amália amou Larissa desde a primeira vez que a viu, sentiu-se maternalmente ligada a ela. Foi escolhida para ser sua madrinha. Letícia e Larissa estudaram na mesma escola, faziam os mesmos cursos e dividiam as mesmas amizades. O vínculo entre elas, abençoado por Nossa Senhora, uniu Amália, Letícia e Larissa para além de uma promessa. Tratava-se de algo muito maior. Tratava-se de amor, fé e graça.
Letícia e Larissa hoje têm 22 anos, são grandes amigas, estudam Direito e são jovens especiais com um coração generoso. Amália as consagrou à Nossa Senhora e o vínculo entre as três as une de maneira que só um amor de Mãe alcança a compreensão. Elas contam com Maria.
Mais uma vez eu tive um sonho, que insiste em me dizer para eu escrever. Eu teimo muito.
Nele, no sonho, era dito, não sei por quem, que devemos deixar nossos falecidos ficar perto de nós. Não para nos entristecermos pela dor da ausência, da falta da presença física. Não é isso, apesar de acontecer frequentemente...
A ideia é lembrarmos dos que já se foram a partir do bem que fizeram, das atitudes realizadas. No meu caso particular, é trazer para o meu cotidiano minha mãe. Que fez tanto! Ela cozinhava, costurava, bordava, escrevia, rezava, se importava, ligava, cobrava, e como (rs), ela realizava e dava risada. Contava piada, algumas cabeludas. Nesse caso, ela não se importava. Mamãe tinha intensidade na sua humanidade. Não passava despercebida nem por gente, nem pelos bichos, nem pelas plantas. De tudo sabia, pois lia, e ria. Esse final de semana, em tempos de quarentena, fiz algumas das suas receitas "clássicas", como diria meu irmão Sávio, e foi como senti-la ao meu lado.
Voltando para o sonho, a mensagem é essa: deixar viver os "mortos". Contar suas histórias, manter o espaço deles em nossa vida. Nada de evitar falar. Quem sabe reunir a família para contar os causos de alguém amado, que só não está presente fisicamente. Afinal, se acreditamos em ressurreição, essas pessoas vivem!Pois bem, esse era o desejo do sonho, ou meu mesmo. Deixar viver e incluir na nossa rotina mais rotineira, o amor e a vida das pessoas que já se foram desse plano, mas se fazem presentes pela importância e pelo legado que deixaram.
A propósito, essa semana mamãe completaria 78 anos de vida. Deixou muita história boa que precisa ser recontada.
A falta de um dos cinco sentidos fez sobrar dedicação e amor na vida da regente do coral infanto-juvenil Dona Lúcia. Maria de Fátima Carvalho, 26, chamada carinhosamente de Fatinha, perdeu por completo a visão aos sete anos de idade em decorrência da retinopatia da prematuridade, doença ocasionada devido ao parto prematuro, como no seu caso, nascida após apenas seis meses de gestação.
A mãe de Fatinha, dona Lúcia Carvalho, 61, inspiração para o nome do coral, conta que o interesse da filha pela música surgiu ainda muito cedo, sempre cantando com alegria pela casa. A mãe fala com emoção sobre o trabalho feito por ela. “Eu sinto que a luz que faltou nos olhos dela, tá em sobra quando ela mostra o mundo para as pessoas. Ela não vê o mundo, mas ela mostra pra gente bem direitinho”, pontua a mãe, com orgulho.
Fatinha teve seu primeiro acesso de aprendizado na música também aos sete anos, após a perda da visão, logo que entrou no Instituto dos Cegos e teve contato com a flauta doce, seu instrumento xodó. Mas não parou por aí. Ao longo dos anos, Fatinha continuou a buscar mais da música, mostrando seu dom com outros instrumentos e com sua voz. Amante da arte, Fatinha não se convenceu dos limites, formou-se em Teatro pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), e atualmente está cursando mestrado em música na mesma Instituição.
Durante sua graduação em Teatro, Fatinha recebeu a missão de desenvolver um projeto social para apresentar em uma das disciplinas do curso. Era período natalino de 2015, e ao assistir a apresentação do coral de crianças no Natal de Luz da Praça do Ferreira, Dona Lúcia sugeriu que a filha formasse um coral com as crianças do bairro Aerolândia, onde residem. Fatinha relutou em por em prática a ideia, pois achava que não seria possível ensinar crianças que não fossem cegas como ela, mas foi impulsionada pela mãe a pelo menos tentar. “A gente começou de repente, com a ideia de tentar mudar um pouco a realidade das crianças aqui do bairro, mas foi um desafio. Eu não me achava capaz de dar aula para crianças que enxergavam. “Logo eu que não vejo nada. Foi realmente uma quebra de barreiras para mim”, afirma Fatinha.
O projeto começou com oito crianças e hoje, após quatro anos de existência, esse número quase quadruplicou. Fatinha conta que além de sua mãe, as crianças foram as maiores incentivadoras para a continuidade do Coral. “Tia, bora continuar, aí fizemos dia das mães... Tia, bora continuar, aí fizemos o dia das crianças... Tia, bora continuar, aí fizemos outro natal”, relembra entusiasmada.
“Cada criança que eu tenho aqui é um pedaço do meu coração. Elas me amam igual, são como se fossem minha família. “Às vezes as pessoas reclamam: por que tu gasta tanto com essas crianças sem ter condições? Simplesmente porque as amo e a gente não abandona a família”, conclui Fatinha.
As crianças que participam do coral tem entre 4 e 14 anos e tem motivações diversas, desde gostar de música, se divertirem ou ter sido incentivadas por outras crianças que já participam do projeto.
Fatinha, a regente, é tia da Sofia Lima, 9, que se sente orgulhosa da regente, e diz que quando viu a tia cantando, também quis cantar. Galinha pintadinha foi a primeira música que ela se inspirou e está no coral desde a sua criação.
As músicas e as professoras motivam Marcos Vinícius, 11, a tocar flauta e cantar no coral, mas ele diz que quer, na verdade, é trabalhar e ganhar dinheiro.
Rayanne Santos, 13, comenta que diminuir a timidez de cantar e aprender coisas novas é o que a faz participar do coral. Já para Mayara, 8, que entrou aos 6 anos de idade, quando indagada sobre o que ela acha de cantar e tocar flauta, ela afirma: “os dois são minha vida”. Finaliza dizendo que no coral dona Lúcia eles têm amor.
Sob a ótica de Késia Cavalcante, 10, que foi trazida por uma amiga: “Aqui eu tenho várias amizades, posso aprender a tocar algum instrumento e é bom para eu cantar, pois canto na igreja. Eu achei bem legal porque aqui é de graça, dá lanche, a tia Fatinha ensina a gente a cantar, tocar instrumento, e quando a gente erra alguma coisa, ela ajuda a melhorar os nossos erros.” Késia finaliza explicando que o próximo passo é aprender a tocar piano.
Aos quatro anos, Maria Eduarda conta que gosta de cantar “Borbuletinha” e vem acompanhada da mãe e de Miguel, de 6 anos. A influência de uma criança sobre outra fica clara nos depoimentos.
Vitória Cordeiro, 12, que sonha em ser modelo, é uma das mais “antigas” no coral, pois está desde os 5 anos. Afirma que estar no coral a faz feliz e se sente bem em ver a felicidade da Fatinha, regente do grupo. E sobre ela resume: “Ela faz tudo por nós”.
Rosália Cordeiro, é a mãe da Vitória, que participa desde os 5 anos. Percebe-se que tem muito orgulho da filha integrar o grupo, elogiando a Fatinha, pois afirma que a regente traz a alegria por onde passa, e se sente realizada pela participação da filha que não falta às aulas.
Maria Gabriele, 11, conta que entrou logo no início da formação do coral. Saiu uma vez, mas voltou.“Nas fotos, eu estou em todas e meu maior sonho é ser cantora”, fala com firmeza e alegria.