À noitinha, vi uma criança de 5 anos na rua. Um menino negro, pobre, só de calção. Ele gritava para a irmã que ia à frente.
- Olha Isabel! Ele tentava com muito custo subir num skate. Queria mostrar o que sabia (ou não) fazer com o skate. E insistia: - Olha Isabel, olha Isabel. Ela não olhava. Nem diminuía o passo. Não se importava. Estava preocupada com suas próprias questões.
Queria ter podido imaginar um bom futuro para aquele menino, mas as estatísticas não permitiram. Pisquei os olhos e ao reabri-los vi o menino dando lugar a um jovem que não teve oportunidade de estudo, nem de trabalho, com uma arma na mão. Ah, dessa vez, nós e Isabel olharíamos pra ele. Não seria mais invisível para ninguém. Enxerguemos os meninos de rua hoje para não vê-los de armas amanhã. Olha Isabel!
O ano de 2020 foi um ano de pandemia, de adoecimento, de milhares de mortes, de enterros sem velório, partidas sem despedidas. Um ano que preparou nosso despreparo, nosso destempero e nosso desamor. Por outro lado, também foi um ano de estar mais perto dos seus, dialogar mais com a família, conversar com os amigos, doar mais, pensar mais e em silêncio se manter.
Houve uma reinvenção de viver. Teletrabalho, cursos online, lives musicais, doações virtuais. Fomos solidários sem sair de casa. Tudo muito novo e inédito. Em momentos nos adaptamos, noutros nos desesperamos. Isolados por meses dentro de casa, a convivência não era fácil, mas o silêncio tudo acalmava. E no dia seguinte, novo ânimo reiniciava.
Fizemos aniversários, bingos, reuniões e comemorações conectados por um link, por videochamadas. Estávamos presentes de alguma maneira. Estudamos em salas de aula online, defendemos monografia virtualmente, colamos grau em estilo Drive In. Impensável! Recebemos presentes, cartões e mimos em datas comemorativas ou não, que nos davam um alento que o amor estava por perto, em formato de carinho.
A forma de comunicação eficaz também mudou. Uma videochamada nos alegrava. Fizemos cafés remotos com conversas reais. Nunca foi tão bom atender um telefonema! Fizemos dinâmicas entre amigas de ligarmos umas para as outras. Passamos horas em conversas. Voltamos às antigas. Vovós, netos, pais e filhos, familiares e amigos se conectaram de formas que nunca imaginaríamos.
Odiamos e nos apaixonamos por nós mesmos, por quem somos, por quem nos tornamos. Às vezes falávamos, em momentos calávamos, muitos instantes soluçávamos. Foi um turbilhão de coisas e ao mesmo tempo, nada. Nada de sair, de encontrar, de aglomerar. Havia um caos interior misturado com um por vir esperançoso que essa fase iria passar.
2021 chegaria. Tudo iria embora. Doença, coronavírus, máscaras. Nada! O Ano Novo rompeu e milhares de vida continuaram a ser perdidas. O adoecimento chegou, o isolamento foi necessário e voltamos a 2020. Entre medo e cuidados, vamos seguindo esperançosos mesmo que o normal não volte a ser como antes.
Acreditamos firmemente que tudo tem um propósito. Mesmo que precisemos viver de outra forma e realmente precisamos. Mesmo que não estejamos preparados. Releituras, amor em qualquer situação e presença carinhosa são as maiores lições que 2020 e 2021 nos têm dado. Sigamos nossos corações irmanados com nossa essência de servir e amar para além dos anos de pandemia.
Amália entrou no consultório do obstetra carregando no ventre seu primeiro filho ou filha. A gestação, recém descoberta, já entrava no terceiro mês. Era um misto de alegria e receio.
- Dr. Malan, aqui estão os exames que o senhor pediu.
O médico leu os resultados, ficou um pouco em silêncio, e pausadamente disse à Amália que ela deu positivo para toxoplasmose. Seguiu com a explicação.
- Antes de mais nada, quero informar que tem tratamento, mas preciso alertar para alguns riscos. O bebê pode ter problemas de visão, de desenvolvimento mental e há possiblidade de aborto.
Apesar de toda habilidade do médico, as respostas desestabilizaram Amália. Saiu desalentada. Perder um filho que ainda nem tinha nascido. Cegueira ou debilidade mental, eram as opções mais vantajosas. Recorreu à Mãe das mães.
- Nossa Senhora, afasta esse cálice do meu rebento. Rogo que meu filho nasça. Cuidarei dele de maneira abundante. Coloca em meu caminho outro filho e que com ele eu tenha uma missão. Até essa criança completar 15 anos, serei sua guardiã. Eu creio na tua Graça!
Passaram-se seis meses. Amália fez o tratamento prescrito pelo médico, realizou exames e perseverou na oração a Nossa Senhora, sua guia e protetora. Sentia-se amparada pela Virgem Maria de maneira que só a fé explicava.
Antes do parto, havia dois nomes que Amália titubeava em escolher: Letícia ou Larissa. O primeiro nome significava alegria, e o segundo, adorável. Era assim que ela sentia sua filha: uma adorável alegria! Não sabia por qual decidir, mas uma coisa era certa: parto cesárea! Ela lá queria sentir dor. A data não poderia ter sido outra, dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida.
Letícia nasceu dia 6 de outubro, de parto normal. Foi tudo como Amália não havia planejado, mas Nossa Senhora havia preparado. O teste do pezinho foi feito e Maria Santíssima foi louvada. A criança nasceu completamente saudável. A felicidade de Amália era indizível. Havia alcançado duas graças: era mãe pela primeira vez e sua filha era sã. Mãe e filha eram um só corpo, um só coração. Letícia veio ao mundo trazendo amor e a alegria que seu nome anunciava.
O vínculo com Nossa Senhora ficou mais forte e Amália pediu para que a Santa lhes mostrasse o outro filho que ela cuidaria. Ela saberia quando o encontrasse.
Confidenciou à sogra Rute sua promessa. Ambas foram fazer uma visita a uma criança que acabara de nascer. Chegando na casa humilde, foram recebidas por dona Maria, a avó da criança adorável, que se chamava Larissa. Amália exultou de alegria e deu graças por ter recebido um sinal tão preciso da filha que Nossa Senhora lhe enviou.
Amália amou Larissa desde a primeira vez que a viu, sentiu-se maternalmente ligada a ela. Foi escolhida para ser sua madrinha. Letícia e Larissa estudaram na mesma escola, faziam os mesmos cursos e dividiam as mesmas amizades. O vínculo entre elas, abençoado por Nossa Senhora, uniu Amália, Letícia e Larissa para além de uma promessa. Tratava-se de algo muito maior. Tratava-se de amor, fé e graça.
Letícia e Larissa hoje têm 22 anos, são grandes amigas, estudam Direito e são jovens especiais com um coração generoso. Amália as consagrou à Nossa Senhora e o vínculo entre as três as une de maneira que só um amor de Mãe alcança a compreensão. Elas contam com Maria.
Mais uma vez eu tive um sonho, que insiste em me dizer para eu escrever. Eu teimo muito.
Nele, no sonho, era dito, não sei por quem, que devemos deixar nossos falecidos ficar perto de nós. Não para nos entristecermos pela dor da ausência, da falta da presença física. Não é isso, apesar de acontecer frequentemente...
A ideia é lembrarmos dos que já se foram a partir do bem que fizeram, das atitudes realizadas. No meu caso particular, é trazer para o meu cotidiano minha mãe. Que fez tanto! Ela cozinhava, costurava, bordava, escrevia, rezava, se importava, ligava, cobrava, e como (rs), ela realizava e dava risada. Contava piada, algumas cabeludas. Nesse caso, ela não se importava. Mamãe tinha intensidade na sua humanidade. Não passava despercebida nem por gente, nem pelos bichos, nem pelas plantas. De tudo sabia, pois lia, e ria. Esse final de semana, em tempos de quarentena, fiz algumas das suas receitas "clássicas", como diria meu irmão Sávio, e foi como senti-la ao meu lado.
Voltando para o sonho, a mensagem é essa: deixar viver os "mortos". Contar suas histórias, manter o espaço deles em nossa vida. Nada de evitar falar. Quem sabe reunir a família para contar os causos de alguém amado, que só não está presente fisicamente. Afinal, se acreditamos em ressurreição, essas pessoas vivem!Pois bem, esse era o desejo do sonho, ou meu mesmo. Deixar viver e incluir na nossa rotina mais rotineira, o amor e a vida das pessoas que já se foram desse plano, mas se fazem presentes pela importância e pelo legado que deixaram.
A propósito, essa semana mamãe completaria 78 anos de vida. Deixou muita história boa que precisa ser recontada.
A falta de um dos cinco sentidos fez sobrar dedicação e amor na vida da regente do coral infanto-juvenil Dona Lúcia. Maria de Fátima Carvalho, 26, chamada carinhosamente de Fatinha, perdeu por completo a visão aos sete anos de idade em decorrência da retinopatia da prematuridade, doença ocasionada devido ao parto prematuro, como no seu caso, nascida após apenas seis meses de gestação.
A mãe de Fatinha, dona Lúcia Carvalho, 61, inspiração para o nome do coral, conta que o interesse da filha pela música surgiu ainda muito cedo, sempre cantando com alegria pela casa. A mãe fala com emoção sobre o trabalho feito por ela. “Eu sinto que a luz que faltou nos olhos dela, tá em sobra quando ela mostra o mundo para as pessoas. Ela não vê o mundo, mas ela mostra pra gente bem direitinho”, pontua a mãe, com orgulho.
Fatinha teve seu primeiro acesso de aprendizado na música também aos sete anos, após a perda da visão, logo que entrou no Instituto dos Cegos e teve contato com a flauta doce, seu instrumento xodó. Mas não parou por aí. Ao longo dos anos, Fatinha continuou a buscar mais da música, mostrando seu dom com outros instrumentos e com sua voz. Amante da arte, Fatinha não se convenceu dos limites, formou-se em Teatro pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), e atualmente está cursando mestrado em música na mesma Instituição.
Durante sua graduação em Teatro, Fatinha recebeu a missão de desenvolver um projeto social para apresentar em uma das disciplinas do curso. Era período natalino de 2015, e ao assistir a apresentação do coral de crianças no Natal de Luz da Praça do Ferreira, Dona Lúcia sugeriu que a filha formasse um coral com as crianças do bairro Aerolândia, onde residem. Fatinha relutou em por em prática a ideia, pois achava que não seria possível ensinar crianças que não fossem cegas como ela, mas foi impulsionada pela mãe a pelo menos tentar. “A gente começou de repente, com a ideia de tentar mudar um pouco a realidade das crianças aqui do bairro, mas foi um desafio. Eu não me achava capaz de dar aula para crianças que enxergavam. “Logo eu que não vejo nada. Foi realmente uma quebra de barreiras para mim”, afirma Fatinha.
O projeto começou com oito crianças e hoje, após quatro anos de existência, esse número quase quadruplicou. Fatinha conta que além de sua mãe, as crianças foram as maiores incentivadoras para a continuidade do Coral. “Tia, bora continuar, aí fizemos dia das mães... Tia, bora continuar, aí fizemos o dia das crianças... Tia, bora continuar, aí fizemos outro natal”, relembra entusiasmada.
“Cada criança que eu tenho aqui é um pedaço do meu coração. Elas me amam igual, são como se fossem minha família. “Às vezes as pessoas reclamam: por que tu gasta tanto com essas crianças sem ter condições? Simplesmente porque as amo e a gente não abandona a família”, conclui Fatinha.
As crianças que participam do coral tem entre 4 e 14 anos e tem motivações diversas, desde gostar de música, se divertirem ou ter sido incentivadas por outras crianças que já participam do projeto.
Fatinha, a regente, é tia da Sofia Lima, 9, que se sente orgulhosa da regente, e diz que quando viu a tia cantando, também quis cantar. Galinha pintadinha foi a primeira música que ela se inspirou e está no coral desde a sua criação.
As músicas e as professoras motivam Marcos Vinícius, 11, a tocar flauta e cantar no coral, mas ele diz que quer, na verdade, é trabalhar e ganhar dinheiro.
Rayanne Santos, 13, comenta que diminuir a timidez de cantar e aprender coisas novas é o que a faz participar do coral. Já para Mayara, 8, que entrou aos 6 anos de idade, quando indagada sobre o que ela acha de cantar e tocar flauta, ela afirma: “os dois são minha vida”. Finaliza dizendo que no coral dona Lúcia eles têm amor.
Sob a ótica de Késia Cavalcante, 10, que foi trazida por uma amiga: “Aqui eu tenho várias amizades, posso aprender a tocar algum instrumento e é bom para eu cantar, pois canto na igreja. Eu achei bem legal porque aqui é de graça, dá lanche, a tia Fatinha ensina a gente a cantar, tocar instrumento, e quando a gente erra alguma coisa, ela ajuda a melhorar os nossos erros.” Késia finaliza explicando que o próximo passo é aprender a tocar piano.
Aos quatro anos, Maria Eduarda conta que gosta de cantar “Borbuletinha” e vem acompanhada da mãe e de Miguel, de 6 anos. A influência de uma criança sobre outra fica clara nos depoimentos.
Vitória Cordeiro, 12, que sonha em ser modelo, é uma das mais “antigas” no coral, pois está desde os 5 anos. Afirma que estar no coral a faz feliz e se sente bem em ver a felicidade da Fatinha, regente do grupo. E sobre ela resume: “Ela faz tudo por nós”.
Rosália Cordeiro, é a mãe da Vitória, que participa desde os 5 anos. Percebe-se que tem muito orgulho da filha integrar o grupo, elogiando a Fatinha, pois afirma que a regente traz a alegria por onde passa, e se sente realizada pela participação da filha que não falta às aulas.
Maria Gabriele, 11, conta que entrou logo no início da formação do coral. Saiu uma vez, mas voltou.“Nas fotos, eu estou em todas e meu maior sonho é ser cantora”, fala com firmeza e alegria.
Nomofobia:
uso abusivo de celular gera novas doenças, como o "Efeito Google"
Você desbloqueia o celular, frequentemente, para conferir se há
mensagens, recados, e-mails novos? Tem a impressão de que o celular vibrou quando está no bolso e quando vai conferir não há
nada? Perde a noção do que está acontecendo em volta quando está
concentrado na tela do smartphone? Confere o celular quando acorda, quando vai dormir e até no trânsito?
O QUE É
NOMOFOBIA
Todas esses
sintomas acima se referem a novos diagnósticos clínicos de uso abusivo de
smartphones. A dependência tem vários níveis: vai da falta de
educação digital, que inclui a dificuldade de equilíbrio sobre o
tempo e locais de uso, até o nível patológico. Segundo a psicóloga
Anna Lucia Spear King, doutora em saúde mental do Delete,
núcleo especializado em Detox Digital, na
UFRJ.
Os pesquisadores do Instituto
Delete diagnosticaram diversos transtornos relacionados, além
da nomofobia em si, que é o medo de ficar sem o celular. Existe
o “Efeito Google”, que acontece quando o cérebro humano começa a segurar
menos informações porque sabe que vai obter respostas com poucos
cliques. Outro transtorno é o de “Invisibilidade Social”, que ocorre
quando a pessoa negligencia o que está em sua volta por estar concentrada na
tela do dispositivo.
QUAIS OS NOVOS DIAGNÓSTICOS CLÍNICOS? INDIQUE SUA DEPENDÊNCIA
Tem ainda a
“Síndrome do Toque Fantasma”, que é quando o cérebro faz com que você pense que
o celular está vibrando no bolso, quando não está. O Instituto
Delete também mapeou a “Depressão do Facebook”, causada pela
comunicação na rede social.
“As pessoas
vão para as redes sociais quando têm depressão pra se
sentirem menos deprimidas, se sentirem participando, inseridas em algum
contexto ou não se sentirem só. Mas, ao menos tempo, elas podem
se sentir mais deprimidas se acreditarem em tudo o que é postado porque nas
redes sociais, as pessoas só postam o melhor”, explica a
pesquisadora do Delete.
SOMOS MAL-EDUCADOS DIGITALMENTE?
“As pessoas que têm
esse uso excessivo diário, na verdade, são mal-educadas digitalmente, não sabem
usar a tecnologia no dia a dia dando limites. Elas usam no teatro, no
cinema, elas usam em companhia de outras pessoas, elas usam até em velório para
tirar selfie com o morto, ao fundo”, relata Spear. As cenas, por mais
exageradas que possam parecer, são reais e cada vez mais comuns. A
balconista Liana Araújo, por exemplo, confessa que não larga o aparelho:
Não tem como ficar
sem, já é um vício. Às vezes, a gente se comunica até em casa. Por
exemplo: estou no quarto; minha irmã, na cozinha. Ao
invés de falar, mando mensagem.
A irmã, Lívia
Maria, de 14 anos, confirma a história. "Vamos supor que ela quer um
suco, um pão. Aí ela manda a mensagem: ‘Lívia, faz isso pra mim’. Aí
eu vou lá e faço”.
DEPRESSÃO E ANSIEDADE SÃO AGRAVADAS COM A DEPENDÊNCIA DIGITAL; SONO É
OUTRO TRANSTORNO
Quando o uso do celular se
torna desequilibrado e começa a afetar efetivamente áreas do
cotidiano, é possível que a dependência esteja evoluindo. A psiquiatra
Tatiana Pinho, do ambulatório de Psiquiatria Geral doHospital
Universitário Walter Cantídio explica que o vício patológico se manifesta “quando
existe um descontrole nesse uso”.
Esse uso acaba
interferindo em diversas esferas. “O tempo vai passando e a
pessoa perde a percepção disso e deixa de fazer coisas que poderiam ser
importantes como estudo, trabalho, contato com os amigos, com a família”,
afirma Tatiana. E, geralmente, começam a
surgir consequências práticas. “Fim de relacionamento, problemas com
filhos, perda de emprego, problema em relação a estudo, a dificuldade de
concentração em torno do celular”, esclarece.
A psicóloga
Tamara Maia, que atende pacientes na rede particular de Fortaleza, explica
que o “vício na internet ou nas tecnologias de forma geral é
comparado a outros tipos de vício, por exemplo, o vício de compulsividade alimentar ou em drogas”. Ela explica
que “é algo que é prazeroso naquele momento mas que, realmente, cria
uma relação de dependência e nenhuma relação de dependência é positiva”,
afirma.
A estagiária de
pedagogia Artemmisia Oliveira conta que já sofreu muitos
prejuízos na rotina em razão do uso excessivo de celular. Por causa do filho
pequeno, evitava pegar o aparelho de dia. Mas
à noite, abusava.
Ficava no celular até duas e
meia da madrugada, três, assistindo filme, respondendo às
pessoas,
olhando Instagram, Facebook, e isso atrapalhava muito
a minha rotina, meu sono
E mesmo depois de
já ter desligado o celular pra dormir, Artemmisia voltava
a checar a tela. “Se eu fosse pro banheiro, na volta, eu tinha
que dar aquela conferida, pra ver se não tinha mensagem, alguma coisa",
conta. “No outro dia, estava esgotada”.
A insônia é uma das
consequências possíveis geradas pelo uso abusivo do celular. Mas há
outras. A psicóloga do Delete, Anna
Lucia Spears, explica que a dependência é patológica quando está
associada a algum transtorno mental, como ansiedade, depressão, compulsão,
transtorno do pânico que potencializam o uso das telas.
“Muita gente passa
a viver a realidade da internet, então, passa o dia todo com a necessidade de
checar, tirar fotos, conferir curtidas. A pessoa passa a viver muito presa
em torno disso, o que pode acarretar ou agravar quadros já existentes
de depressão e de ansiedade”, explica a psicóloga Tatiana Pinho, do
HUWC.
Fonte: Matéria veiculada no
Diário do Nordeste dia 30/10/2019
Nascida no interior do Ceará, no Município de
Morada Nova, Keivianne da Silva Lima Reges foi morar em Limoeiro do Norte ainda
bebê. Teve uma infância tranquila até os sete anos, quando seu pai saiu de
casa. Poderia ser mais uma das tantas crianças que não tiveram oportunidades e
iriam engrossar as fileiras do desemprego, de uma vida estritamente doméstica,
sem vislumbrar muitas perspectivas.
Mas para ela foi diferente. Por quê? Não se sabe ao
certo, mas o que se tem certeza é que a educação foi o trunfo que Keivianne
teve para conseguir um futuro diferente.
Para sustento da família, teve que ajudar a mãe, fazendo
e vendendo salgados na vizinhança e bairros próximos da sua casa. Depois foi trabalhar
como babá para ajudar à mãe, que ainda tinha uma filha pequena e não recebia
pensão alimentícia do pai. O salário de Keivianne era a receita principal da
casa.
O relacionamento com a mãe e as irmãs era de união,
resguardando um amor por essa pequena família.
Casou-se aos 17 anos. Outra vez, a vida poderia ter
tomado um rumo mais “normal” para as adolescentes que casam prematuramente.
Poderia ter deixado de estudar, trabalhar e ter filhos nessa idade. Novamente
aconteceu diferente para Keivianne. Ela continuou trabalhando e estudando, pois
tinha o sonho de se formar. Eis aqui outro aspecto marcante da sua trajetória:
ela tinha um sonho, que a afastou, mais uma vez, das estatísticas das meninas
da sua idade que casavam. O casamento entre educação e sonho a direcionou para
outros caminhos.
Os filhos só vieram depois da
formatura. Aos 28 e 30 anos, ela teve a experiência da maternidade, outro
momento marcante em sua vida, mas que foi decidido com maturidade e no momento
apropriado, para que ela pudesse realizar mais um sonho: o de ser mãe.
A convicção do estudo veio de várias
fontes inspiradoras: a mãe, que a incentivou, não permitindo que ela desistisse
de estudar, mesmo estando cansada do trabalho. O esposo, que possuía um curso
técnico, e falava muito sobre sua experiência no meio acadêmico, tendo sido o
seu maior incentivador, financiando cursinhos e vestibulares, e a família para
quem ela trabalhava, em que os patrões eram formados, situação que lhe chamou a
atenção.
A sua percepção de que os estudos
mudavam a vida das pessoas foi decisiva para ela querer essa mudança. Ter um
salário melhor, e consequentemente uma condição financeira mais elevada, foram
fatores que a motivaram a persistir no mundo acadêmico.
Mas a obstinação em alcançar seus
sonhos também trouxe desafios. Como trabalhava na adolescência, não tinha muito
tempo para se dedicar aos estudos, portanto, a base teórica foi prejudicada.
Foram necessários vários cursinhos preparatórios e vestibulares até conseguir
passar. O primeiro ano da graduação também foi muito difícil devido às mudanças
e a distância da família. Após adaptar-se, conseguiu ter ritmo de estudos e a
entrada no mestrado foi algo natural.
Quanto à universidade pública, ela se surpreendeu
positivamente, pois desde que comprovou sua “baixa renda”, logo conseguiu
moradia com água, luz e internet dentro da própria universidade, além de uma
bolsa de incentivo na qual podia custear sua alimentação.
Já no mestrado, teve a oportunidade de ir para a Universidade
Federal do Ceará mediante o recebimento de bolsa, com acesso ao restaurante universitário,
onde fazia suas duas principais refeições a um custo muito baixo.
Sua especialidade é a área de produção de mudas de
espécies frutíferas e o reuso de água na agricultura. Houve forte identificação
com a agronomia pelas inúmeras possibilidades de atuação e pela região que
reside ser um polo produtor.
Entre o mestrado e o doutorado, fez-se mãe, somando
outras jornadas na sua trajetória. Atribui a sua determinação à muita fé e
força de vontade, além da ajuda da família, e em especial do esposo. Elencando
suas prioridades, ela afirma que quase sempre vem primeiro os filhos, e depois
o doutorado, por ser o sustento da família. O marido se encontra desempregado e
a bolsa do doutorado é o que mantido Keivianne na universidade, pois se não
fosse isso, teria que parar de estudar.
Keivianne da Silva Lima Reges é engenheira
agrônoma, formada na Universidade Federal Rural do semiárido UFERSA, campos
Mossoró-RN, fez Mestrado na Universidade Federal do Ceará UFC-CE, e atualmente
é Doutoranda na Universidade Federal Rural do semiárido-UFERSA, campos Mossoró-RN.
E ainda tem muitos sonhos a realizar, inclusive de
inspirar seus filhos a realizar os seus.